Retalhos de Gilda

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A LOJA DE DEUS
A LOJA DE DEUS

Um viajante entrou numa cidadezinha, pela primeira vez, e começou a observar as construções e a ler os nomes nas portas do comércio. Chamou-lhe a atenção o de uma, onde em letras garrafais, se lia: LOJA DE DEUS! Curioso estacionou o carro e entrou no imóvel. Havia no balcão apenas uma pessoa, que lhe sorriu. Nas prateleiras repletas havia caixas fechadas, com etiquetas. Mas, de onde ele estava, não conseguia ler o conteúdo. Perguntou ao vendedor:
- O que vocês vendem nesta loja?
- Tudo de bom que existe para as pessoas.
- Como assim? Dê um exemplo, por favor.
- Vendemos os melhores sentimentos que um ser humano pode ambicionar. Por exemplo, a alegria, a bondade.
- Como são medidos?
- Por quilo ou por tempo.
- Eu posso escolher?
- Claro. Você é que sabe o que lhe falta ter.
Ele entrou logo no que achou que era uma brincadeira do balconista e pediu:
- Quero 5 quilos de paciência e 10 quilos de tolerância. O mundo está muito raivoso e agressivo. Acho que estas duas coisas me ajudariam a enfrenta-lo.
- Se o senhor fala de enfrentamento é porque também está no mesmo diapasão dos outros, disse o vendedor, ao mesmo tempo que sorria.  Por que o senhor não pensa em si mesmo? Que tal, como lhe sugeri antes, a alegria? Ou talvez a sabedoria?
- Há limite para a compra?
- Não senhor. Esta é a loja de Deus e Deus não tem limite, é infinito.
O viajante se entusiasmou. Afinal ele precisava bem de um monte de coisas boas. As tribulações e conflitos mundiais atingiam a todos. Havia uma ampla conflagração e ele poderia encontrar um oásis de paz, com os produtos daquela loja. Resolveu soltar a sua imaginação e pediu ao vendedor:
- Por favor, amigo, quero uma enorme quantidade de alegria, sabedoria, paciência, tolerância, justiça, temperança, amizades, carinho, beleza, harmonia, paz, esta quero o máximo que puder levar, se não for muito pesada ou volumosa. Gostaria também de solidariedade, amor, generosidade, discernimento, modéstia e sobriedade. Você acha que tudo isso caberia no meu carro?
- Sim, senhor. Ainda sobra espaço.
- Dá-me, então, um pouco de sentido de economia e poupança. A gente tem que pensar nas coisas práticas da vida.
- É verdade. Tem razão. O que mais?
- Acho que com isso eu posso ser feliz.
- O senhor não quer levar também a felicidade?
- Tem aí? Perguntou espantado.
- É a loja de Deus. Tem tudo de bom.
- Quero então uma tonelada de felicidade. Com isso eu completo a minha lista.
O vendedor se afastou para o interior da loja, para recolher o pedido. Levou um bom tempo sem aparecer. Ele ficou imaginando o tamanho do embrulho para tal quantidade de mercadorias pedidas e, ficou estarrecido, quando o viu surgir com uma caixinha um pouco maior de que uma caixinha de fósforos.
- Tudo o que pedi está aí?
- Sim, senhor. Mas em forma de sementes. O senhor irá plantá-las, cultivá-las, regá-las, para que as plantas cresçam e produzam frutos. Deus não lhe dará o peixe. Ensinará o senhor a pescar. Tenha um abençoado dia e boa viagem.
No mesmo instante que ele pegou a caixinha, tudo à sua volta desapareceu e ele se viu ao lado do carro, na calçada. Foi um sonho? Se perguntou. Constatou, porém, que a caixinha ainda estava na sua mão espalmada para pegá-la, no instante que o vendedor lhe estendeu....
Gilda Porto
Enviado por Gilda Porto em 21/06/2021
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