Retalhos de Gilda

Escrever é um vício.

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Considerações sobre a morte

Todos nós temos o mesmo vazio diante da ausência definitiva de uma pessoa querida. Perguntas irrespondíveis:
1) Os nossos mortos estão presentes, mas invisíveis aos nossos olhos?
Faço outros dois questionamentos antes de tentar responder a esse:
a) O que é estar presente? É estar visível?  Assim, uma pessoa distante, que não está ao alcance da vista, morreu?. A nossa vista nos prega peça. O fenômeno da refração da luz do sol numa jarra de água, onde é colocada uma vareta reta, dá a ilusão de que é torta. Nossos olhos não são confiáveis. E se nos colocam uma lente espessa, maior que o grau que usamos, as imagens são distorcidas e não correspondem à realidade. Outra ponderação: Não sabemos o que é um corpo ressuscitado. No Evangelho de São João, capítulo 20, Maria Madalena vê Jesus na entrada do túmulo e não o reconhece; pensou que era o jardineiro. Jesus não estava invisível a seus olhos, mas irreconhecível.
b) Quando falamos de mortos, estamos nos referindo àqueles corpos sem vida que velamos e depois enterramos? Quando a lembrança dos que se foram, nos vem à cabeça, é esta imagem final que nos chega, ou da pessoa com vida, falando e rindo conosco. Claro que quando recordamos de alguém, que se foi, é de antes deste momento de dor. Portanto, no nosso coração e na nossa lembrança, eles não estão mortos: "não morre, quem permanece em nosso pensamento".
2) Como consolar-nos?
Lembrando frequentemente destas pessoas, enquanto viviam; das graças que fizeram, dos presentes que nos deram e de tudo que representaram e representam para nós. É impossível esquecer a quem amamos. As coisas boas, que vivemos juntos, consolam a sua ausência. Deixar a memória da dor e do vazio que eles deixaram em nossas vidas enterrados com seus corpos. Também é bom pensar que, por estarem na presença de Deus, eles são infinitamente felizes e não sofrem mais as nossas dores e doenças. O relógio do tempo acabou e eles vivem, em gozo, na eternidade, que é uma outra dimensão, à qual a nossa inteligência limitada não pode compreender.
3) O que é a morte?
É a parada total de atividade cerebral, ou o cessar dos batimentos cardíacos? Cientificamente pode haver uma definição, que certamente não afastará as inquietações sobre o assunto.  Podemos ter uma vaga idéia, através da fé e da esperança. Gosto de pensar no depois da morte como, por exemplo, a vida numa bolha, no fundo do mar, ou num planeta distante. Nunca ninguém fez isto e voltou para contar qual a sensação. A resposta definitiva a essas perguntas, só teremos na nossa hora.
A religião católica tem várias teses, bem fundamentadas nas Escrituras, para falar dela:
a) A morte é um outro nascimento; só que, desta vez, para a vida eterna. Os santos não comemoram a sua data de nascimento, mas da morte; ou seja, nascimento para a vida eterna. Sob este prisma é um princípio e não um fim.
b) A morte é a transformação, pela misericórdia divina, de um corpo perecível em um corpo ressuscitado, eternamente na presença de Deus, em beatitude, sem sofrimento ou dor.

Com a violência nas grandes cidades em ascensão, e os cataclismos acontecendo em várias partes do mundo, convivemos diariamente com notícia de morte de famosos e anônimos; violenta ou natural; conseqüência de doença grave ou acidente fatal. O tema é recorrente, embora seu conteúdo não nos convide à  reflexão sobre ela. E, no entanto, por mais que não queiramos pensar nisso, nada indica que alguém ficará sem experimentá-la. Prefiro acreditar que Quem nos criou para a felicidade, e na vida terrena não existe tal coisa, reservou para os generosos, uma Vida plena na Sua Presença, e o passaporte para chegar a ela é a morte.


Petrópolis, 25 de maio de 2010


Gilda Porto
Enviado por Gilda Porto em 25/05/2010
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