Retalhos de Gilda

Escrever é um vício.

Textos

A feiticeira da montanha
A FEITICEIRA DA MONTANHA DE VIDRO


Era uma vez, num reino distante, onde havia uma linda princesa. A jovem crescia em formosura e encanto. Era gentil com todos, nobres e plebeus. Descia do castelo, passeava pela aldeia, brincava com as crianças e acarinhava os velhos. Todos gostavam dela, especialmente o soldado do regimento que tocava o tambor, para marcar o ritmo quando seus companheiros marchavam.
No limite da cidade havia também uma montanha de vidro. No seu alto, bem alto, morava uma feiticeira invejosa. Ela era muito feia, com uma verruga na ponta do nariz e, embora da mesma idade da princesa, parecia sua mãe. Todos gostavam da filha do rei e temiam a outra invejosa, que resolveu sequestrá-la, levando-a para o alto da montanha de vidro. Lá ninguém poderia resgatá-la. A malvada ia e vinha montada em sua vassoura.
O rei ficou desesperado com o desaparecimento da filha. Resolveu fazer uma promessa: daria a mão da princesa em casamento, bem como a metade do reino, a quem conseguisse trazê-la de volta para o castelo. Assim que começou o desafio, os jovens mais corajosos do reino se candidataram ao premio e fracassaram. Também os mais ambiciosos, tentaram, para a repartição desta riqueza. Os mais fortes, levaram os tombos mais feios, pois a montanha de vidro era alta e as encostas bem lisas. Era difícil subir e chegar até o alto. Iam até um certo ponto e escorregavam.
Já havia um grande desânimo no reino, depois de tanta tentativa frustrada. Foi quando o Tamborzinho (este era o apelido do rapaz que tocava tambor) decidiu resgatá-la à feiticeira, não por ambição ou desejo de riqueza e poder, por amor à princesa. Planejou bem detalhadamente a sua investida. Verificou que não conseguiria a proeza de uma só vez, pois a montanha era bem alta. Seriam uns três dias de escalada. Procurou na estrebaria um curtidor habilidoso, que lhe fizesse correias apropriadas para lhe prender. Ele tinha um amigo que fabricava uma espécie de ventosa, que se fixava em superfícies lisas. Encomendou umas cinco delas. As tiras de couro passariam por alças e seria o suficiente para sustentar seu peso. Com o equipamento preparado e um farnel de água e comida, ele se preparou para a maior aventura da sua vida.
Esperou escurecer e iniciou a subida da montanha de vidro. Quando o céu começou a clarear, prendeu-se com as ventosas e as correias, e cobriu-se com uma lona da cor do vidro. Se a feiticeira voasse pelas redondezas não o veria. Dormiu durante o dia e quando escureceu continuou com a sua escala. Antes do alvorecer da terceira noite, ele conseguiu chegar ao topo. Havia, ao lado da casa da bruxa, uma floresta. Ele se escondeu nela e descansou  Quando os primeiros raios de sol apareceram foi devagar até à construção que vira ao chegar. Ouviu quando a feiticeira dizia à princesa:
- Tome seu café da manhã e coma bastante, porque esta é a única comida que você terá durante o dia inteiro. Vou sair para fazer umas maldades e volto mais tarde.
Pegou sua vassoura e voou para longe.
O jovem, assim que ela se afastou, foi até à porta da casa, mas ela estava trancada. Pela janela, viu a princesa e a chamou. Ela ficou encantada com a presença dele. Finalmente alguém conseguira chegar até ali e iria salvá-la.
- Como você conseguiu? – ela perguntou.
- Levei três noites, escalando no escuro e dormindo coberto com uma lona, suspenso em ventosas. Fazia isso durante as horas de luz. Vim para salvá-la da feiticeira.
- Não vai salvar nem a si mesmo - falou uma voz atrás dele.
O Tamborzinho se virou e deu de cara com a malvada, que esquecera a bolsa em casa e voltara para apanhá-la. Sem pensar em lutar com a poderosa, ele correu para se esconder na floresta. A bruxa ainda gritou para ele:
- Agora que sei que você está aqui em cima, vou ficar vigiando e você não conseguirá levar a princesa, a não ser que cumpra três tarefas que lhe dê para fazer. Se você conseguir, eu deixo você levá-la para o palácio do rei. Mas, se você não conseguir realizar uma só delas, perderá sua vida. Concorda?
- Se eu conseguir fazer isso, em três noites, você permitirá que a princesa desça comigo? – perguntou o rapaz.
- Deixo. Concorda em dar a sua vida na tentativa de salvar a princesa?
- Aceito.
- Então volte aqui quando escurecer que eu lhe darei um machado para iniciar seu trabalho. Neste meio tempo descanse bastante, porque o trabalho será duro.
Assim, ele voltou à floresta para pensar numa estratégia que lhe permitisse cumprir a empreitada. Dormiria durante o dia para estar em forma à noite.
Quando o sol se pôs, a feiticeira chegou perto dele com um pequeno machado e disse:
- Sua tarefa desta noite é derrubar todas as árvores desta floresta. Todas.
Entregou-lhe a ferramenta e deixou-o sozinho com seu problema. Ele começou a abater a mais tenra, quase um broto, mas viu que a dificuldade seria muito maior do que imaginara. A madeira daqueles troncos era tão dura, que parecia de ferro. O machado mal  riscava a casca enrugada. Ele sentou-se no chão, coçou a cabeça, se perguntando como faria tal coisa para salvar a princesa. Nisto, ouviu uma gargalhada e olhou na direção de onde vinha o som. Viu um menino vestindo uma roupa colorida, como se fosse a fantasia de um arlequim ou de um “bobo da corte”.
- De que você está rindo? – perguntou ele.
- Da sua cara, seu tolo.
- Não sou um tolo; pelo contrário. Sou o tocador de surdo do regimento real e estou aqui numa missão heróica, de salvar a princesa, que é prisioneira da montanha de vidro.
- Isso eu sei. O que não sei é como você aceitou uma tarefa, propositadamente impossível de se cumprir, arriscando sua própria vida.
- Eu não tinha outra escolha. Era isso ou desistir de salvar a princesa. Aliás, estou dando estas explicações todas, e não sei nem mesmo o seu nome. Quem é você e como se chama? -  disse o Tamborzinho.
- Quem eu sou? Um amigo seu. Quanto ao meu nome, pode me chamar de Rumpeltirsticlin.
- Como é que é?
- Rumpeltirsticlin.
- Não sei pronunciar um nome tão grande e tão enrolado.
- Então diga só “Rumpel”.
- Rumpel, você pode me ajudar a sair desta enrascada?
- Claro. É minha especialidade ajudar amigos em apuros. Vamos fazer o seguinte, você bebe um pouco da água daquela fonte ali e deite-se na relva. Num piscar de olhos o serviço estará feito.
O Tamborzinho olhou na direção apontada pelo novo amigo e viu uma fonte jorrando de uma pedra. Nem tinha reparado sua existência antes. Será que ela existia e ele não havia notado, ou fora criada num passe de magia? Não interessava qual era a verdade. O solicitado era tão simples, que não custava cumprir o sugerido. Assim, fez uma concha com as duas mãos e bebeu a água fria, que saía da pedra. Não conseguiu nem caminhar até o lugar onde deveria se deitar. Ali mesmo fechou os olhos e dormiu profundamente. Acordou foi com a voz estridente da bruxa:
- Você me surpreendeu. Nunca pensei que você fosse capaz de derrubar dez árvores, quanto mais a floresta inteira.
Ele não podia acreditar no cenário diante dele. Aquela enorme mata, com árvores altas e de troncos grossos, estava toda no chão. Os galhos, ainda com suas folhas, se erguiam até a altura de uma casa. Porém, não ficou muito tempo pensando no como, para a malvada desconfiar, pela sua expressão, que não fora ele que fizera o trabalho. Procurou ver se o amigo estava por perto, mas nem sinal dele. Então disse para ela:
- Você é tão ruim que desconhece a força de um sentimento sincero. Meu amor pela princesa me faz um gigante.
- Tudo bem. A primeira tarefa está cumprida. Ainda restam duas. A segunda tarefa é a seguibnte: com o mesmo machado que lhe dei ontem, fazer toda esta madeira ficar em toras, para meu fogão e minha lareira. Amanhã eu volto para ver o que você fez e, se houver uma  árvore sem ser cortada, o que vai ser cortado é seu pescoço. Até lá.
Mal disse isso e desapareceu da frente do Tamborzinho. Assim que ficou só, começou a chamar:
- Rumpel, Rumpel, Rumpel!
Esperou um tempo e como o amigo não aparecia, desanimou. Resolveu iniciar o trabalho naquele momento para ter mais tempo. Novamente se deparou com o mesmo problema da véspera. A madeira era muito dura e o pequeno machado não partia os galhos, apenas fazia marcas. Passou o dia inteiro trabalhando e só conseguiu cortar toras de uma única  árvore. Eram milhares...
A cair da tarde, quando os últimos raios de sol iluminavam o céu, ouviu novamente uma gargalhada às suas costas. Virou-se e deparou com o amigo que rolava no chão de tanto rir.
- E aí? O que você tem para fazer hoje?
- Cortar todas essas árvores em toras. Passei o dia todo trabalhando e só consegui fazer isso com uma.
- Faça a mesma coisa de ontem. Beba da água daquela fonte e deixe o resto comigo.
Tamborzinho se virou e viu novamente a fonte da véspera, que ele nem se lembrava mais. Quando tivera sede durante o dia, bebera da garrafa que trouxera consigo na subida. Que coisa estranha e mágica, esta fonte que aparecia de noite e sumia durante o dia... Parou de cogitar o que era e o que não era, e repetiu o gesto de fazer uma concha com as mãos e beber da água fresca. Na mesma hora caiu adormecido e acordou com o grito de raiva da bruxa.
- Seu infeliz! Como conseguiu tal proeza?
- É o amor... – e riu contente com o segundo desafio cumprido. Seu amigo havia feito, durante a noite, o trabalho todo. Não havia uma só árvore que não estivesse cortada em toras, e as toras espalhadas pelo topo da montanha, onde antes havia uma enorme floresta.
- Agora eu quero ver se você consegue a terceira tarefa: você vai empilhar todas estas toras numa enorme pirâmide. Tudo empilhadinho, sem esquecer uma só de fora. Isso até amanhã de manhã. Falou e desapareceu, como na véspera.
Ele começou o trabalho logo, pensando em fazer a sua parte, até o amigo aparecer de tarde, como tinha acontecido antes. Mas logo, logo, viu que a tarefa não era menor que das outras vezes. Aquelas toras pareciam feitas de chumbo, tal o peso.  Havia uma clareira bastante grande e ele começou a transportar as mais próximas para lá. Às três horas da tarde, só tinha conseguido levar uns cinqüenta pedaços. E isso era a base da pirâmide. A segunda camada não fora nem começada. Estava exausto e parou para descansar, no sol mesmo, porque não havia mais sombra. As árvores tinham sido todas derrubadas. Mas, neste dia, apesar do calor, havia a esperança da volta do amigo, para ajudá-lo a cumprir a última tarefa. Mesmo cansado, começou a planejar como faria para levar a princesa de volta para o palácio. Ele não sabia voar na vassoura da bruxa, mas vira um trenó nos fundos da casa. Colocaria as correias que trouxera, para controlar a direção, se sentaria na frente, ao leme. A princesa poderia vir atrás, segurando nas suas costas, para não cai. Usaria os pés como freios, para diminuir a velocidade. A montanha era íngreme e o vidro liso, o que aceleraria a descida. Neste momento, estava tão entretido com seus pensamentos, que nem notou que o sol se deitara. Foi despertado do seu devaneio com a conhecida gargalhada do seu amigo.
- É a última tarefa? – perguntou ele.
- É. Trabalhei o dia inteiro e só consegui este pouquinho. Tenho que empilhar as toras numa pirâmide. Você pode me ajudar?
- Posso, mas tenho de preveni-lo dos perigos que oferecerá a feiticeira. Ela não vai querer cumprir o que prometeu, de libertar a princesa. O amor de vocês está em risco. Para evitar que ela consiga separar seu intento, desde cedo, você e a princesa devem colocar algodão nos seus ouvidos, para não escutarem as maldições que ela vai lançar. Aqui tem o bastante para os dois. Estendeu a mão, onde havia um chumaço branco, do tamanho de uma laranja. Ele pegou-o e colocou no bolso.
- Está bem. Vou me lembrar disso. E agora, bebo da água da fonte? – perguntou o Tamborzinho.
- Que fonte?
Ele virou-se para o local onde, nos dois dias anteriores, havia a pedra de onde jorrava a água. Não viu nem a pedra e muito menos água. Quando voltou-se para o amigo, ele desaparecera. No seu lugar, erguia-se uma enorme pirâmide de toras empilhadas. O rapaz nem podia acreditar nos seus olhos. Enfiou a mão no bolso e sentiu o algodão. Então, não tinha sido um sonho. O amigo estivera ali, lhe deixara o presente, e cumprira a última tarefa para salvar a princesa do seu cativeiro. Esta noite ele dormiu. Planejava, antes que a bruxa viesse, ir à casa dela, para libertar o seu amor. Ainda no escuro, o sol nem raiara e ele já desperto, procurou o resto da água no cantil e as correias, que serviriam de leme. Se encaminhou para o lugar onde vira o trenó. Fez tudo como planejara e foi até a janela onde estava a princesa, no primeiro dia. Parece que os dois estiveram planejando tudo. Ela pressentira sua presença e, como tivessem combinado um plano, abriu a janela. Ele explicou a necessidade de colocar o algodão nos ouvidos e ela obedeceu logo. Quando ia colocar nos seus próprios, a bruxa chegou praguejando. Nem houve tempo para mais nada. Correram para o trenó, que já estava colocado na beirada da montanha. Sentaram-se e começaram a descer. Quando a feiticeira chegou perto e percebeu que a princesa escapara do seu poder, que era apenas naquele lugar, começou a gritar.
- Não adianta fugir da sua sina. Quando chegarem lá em baixo, vocês vão esquecer tudo que aconteceu aqui. Nem vão saber que se amam e todo o trabalho que o Tamborzinho teve para libertar a princesa. Vão viver infelizes e separados para sempre.
O trenó alcançava uma velocidade incrível, mas o barulho do vento não foi o suficiente para impedir que o nosso herói, sem o algodão nos ouvidos, escutasse a maldição da bruxa. Mal eles chegaram no nível da aldeia, ele caiu num profundo sono. Foi levado carregado para o palácio, junto com a princesa, que o sacudia tentando despertá-lo. Ela não escutara as palavras da malvada e se lembrava de tudo. Mas ele, pobre infeliz, esquecera do seu amor e dos seus sonhos.
Mas uma história como essa não pode terminar de maneira tão triste e dar ao corajoso Tamborzinho uma derrota, depois de tanto sacrifício. Seu amigo, Rumpeltirsticlin, veio em seu socorro. Apareceu com a roupa de bobo da corte diante da princesa e disse:
- Eu estava lá no alto da Montanha de Vidro e fui testemunha do esforço que este rapaz fez para salvá-la. Eu conheço a feiticeira e sabia o esquecimento era uma possibilidade. Por isso dei a ele o algodão, para que vocês colocassem nos ouvidos e não escutassem a maldição.
- Ele ia fazer isso, mas não houve tempo, respondeu a princesa. A bruxa chegou naquele momento, e corremos para o trenó. Apenas eu coloquei o algodão. Por esta razão não me esqueci de tudo. Mas ele, cada vez que tento lembrá-lo, cai em profundo sono e quando acorda, não se recorda de nada.
- Faça o seguinte, peça ao rei que dê uma grande festa, com duração de três dias. Quando o Tamborzinho for para seu quarto, antes que ele feche a porta, comece a cantar a seguinte canção:

Ó TAMBORZINHO, TAMBORZINHO,
EM SORTE MÁ NINGUÉM ME GANHA,
PORQUE ME FOSTE CONQUISTAR
À FEITICEIRA DA MONTANHA.

DAQUELE AMOR QUE ME JURASTE,
NÃO TE RECORDAS COM CERTEZA.
ANTES SER POBRE E SER FELIZ,
QUE SER COMO EU E SER PRINCESA.

A princesa fez como lhe foi ensinado, mas quando o nosso herói foi para o quarto, no caminho, lhe foi oferecida uma taça de vinho que continha um remédio para dormir. Tão logo atravessou a porta, adormeceu no chão mesmo; nem chegou à cama. Com isso, não ouviu a voz da princesa. Na segunda noite, quando ele saiu da festa para se recolher, a princesa foi atrás para repetir a canção. Mas ao ver uma fonte no meio do caminho, ele provou da água, que era enfeitiçada. Adormeceu, como na véspera, antes que a voz da princesa chegasse aos seus ouvidos. No terceiro dia, a filha do rei resolveu ser mais esperta. Ao entardecer, já próximo ao final da festa, ela convidou o Tamborzinho para uma dança. Ele lisonjeado aceitou. Enquanto estavam dançando, ela cantou a música que lhe fora ensinada e, milagre, ele se lembrou de tudo. Aproveitou a festa, chegou perto do rei e pediu a mão da princesa em casamento. O rei se levantou do trono, mandou a orquestra parar por um instante, e falou:
- Amigos e súditos, tenho uma declaração importante a fazer. Minha filha, a princesa Luisa, foi pedida em casamento pelo Tambozinho, e eu lhe concedi a sua mão. Esta festa não acaba aqui. Ela durará por mais uma semana, para que tenhamos tempo de preparar a cerimônia e celebrar a união destas duas pessoas, que se amam tanto.
Nesta hora ouviu-se uma enorme explosão, do lado de fora do castelo e todos correram para ver o que acontecia. Era a montanha de vidros que ia pelos ares. Nunca mais se ouviu falar da feiticeira que morava no seu alto. Será que ela explodiu com a montanha? Nunca se soube.
A princesa e o Tamborzinho se casaram e foram felizes para sempre.

Gilda Porto
Enviado por Gilda Porto em 20/02/2010
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